NEI SILVA







EMBU - SÃO PAULO - BRASIL




Valdiney de Souza Silva, Poeta, cantor, compositor
e escultor é militante cultural ativo da periferia de
Embu, onde participa de saraus dando brilhantismo
as obras de Castro Alves e outros poetas brasileiros
com ênfase na trajetória dos negros discriminados,
escravizados e explorados em toda parte.

Ney também escreve em jornais da região destacando
a importância da literatura e de todas as formas de
arte na valorização do indivíduo, transformando-o
em verdadeiro cidadão, independente de cor, credo,
ou opção partidária.

EM MEMÓRIA == depositaram-me nesta câmara fria
ouço o som fúnebre e opaco da terra
que numa cadência sepulcral vagarosa,
embalara e envolvera esta triste urna

solitário definho junto com flores
apodrecem galhos, espinhos e corpo
ossos e lágrimas secas atrofiam a esperança
é tarde demais não há volta para a superfície

aqui jaz cadáver, carniça caveira
defunto, disforme, descarnado
fátuo, fétido,finado, fossilizado e fulminado
em avançada putrefação decompõe-se rapidamente
no esquecimento que o silêncio eternal sepultou
no conforto desse ciclo da ida da vida e do ir do existir
EM MEMÓRIA II

até que em fim
selaram esta fria catacumba,
lembro aquele macabro som
vagaroso, sepultural, estridente ...

desamparado apodreço aqui , apenas as coroas de rosas murchas,
espinhos sêcos, tábuas de caixão e tecidos da mortalha restaram
as lágrimas que até a pouco me regavam
já não incomodam. e é tarde demais para as cerimônias...

e tanto faz... corpo cadaveroso ou mortuoso,
defunto descarnado, finado pútrefo, tanto faz...
o rumo é a monotonia, a mesmice e a tumba lacrada

no isolamento a deteriorização, do esquecimento,
o inevitável silêncio e a mudez plena implacável.
afinal é a ida da vida e o ir do existir...



O ENCONTRO MARCADO

chegamos ali...
e decidimos parar.
o cansaço nos arrebatara
era chegada também a hora última e o fim...
por fim estaguinamos, exauridos
estarrecidos, engasgados, estafados, esquecidos a afinidade que nos unia
empalidecia num sorriso fraco
recíproco, amigável, amargurado e simbólico...
para distrair ele falava sobre o unir verso
e que no céu bem longe daqui havia estrelas,
mistérios e constelações de fantasias...
deuses... mundos... felicidades... realizações...
pensava eu...
o que ouço é miragem, sonho, alucinação
figuras abstratas coloridas e
recortadas em papel laminado
propositadamente coladas em fundo preto,
um poemeto, uma canção, um conto
talvez algum mito antigo, antiga lenda
uma representação expressionista
recordações impressionista
lembranças metafísicas, mas na realidade tudo era um louco engano
ele apenas parava eu partia...
sua voz calava-se calmamente
ele via além do horizonte e seguiu..
eu não enxergava nada mais que
este triste e congelado por do sol,
ele se foi para a lida da vida
que continua para ele ...
eu que tinha o destino marcado
fui encontrar o ir do existir
RETRATO INTERIOR alma sem estética, cartilagem esquelética, asquerosa lama. impossibilitada de vagar no mundo odiada, repugnada, banida do universo químico, físico, natural. Faleceu inocente, ainda feto mal acabado, revoltada ficou assim. cheia de perversas e fortes marcas, típicas de quem foi fulminado prematuramente macabra sina, de nas mesmices torturantes agonizar, miseramente pondera nos momentos últimos e nos murmúrios horripilantes da partida daquele fadigado e insigne destino, as absintas lembranças dilaceram o intestino, castigam com dolorosas chagas e tornaram duradouros os pesadelos de criança--